Essa semana pensei muito sobre felicidade. Sempre digo que viemos ao mundo para sermos felizes, mas, com o tempo, essa ideia começa a ganhar camadas. Já não é tão simples. A gente amadurece e passa a olhar para a própria história, se perguntando: onde, de fato, fui feliz? E, talvez mais difícil ainda: onde deixei de ser?
Em muitos relacionamentos, a felicidade vai sendo adiada em nome da rotina. O amor que antes era troca, presença e escuta se transforma em uma convivência automática, feita de tarefas, compromissos e obrigações. Divide-se a casa, os dias e os papéis, mas já não se divide a alma. E é nesse espaço silencioso que nasce uma das dores mais profundas: a solidão dentro da relação.
Essa solidão é especialmente dolorosa porque não é visível. Aos olhos de fora, está tudo “normal”. Mas por dentro existe um vazio que cresce quando não há mais escuta, quando o olhar não encontra, quando as palavras ficam presas porque já não parecem fazer diferença. É o cansaço de dividir o espaço sem dividir o sentir. De estar acompanhada e, ainda assim, se sentir profundamente só.
E então a pergunta retorna, mais madura e mais honesta: onde mora a felicidade agora? Quando percebemos que ela não pode depender apenas do outro, nem de sustentar um relacionamento que já não nos nutre emocionalmente. A felicidade começa a surgir no momento em que nos permitimos olhar para essa dor sem negá-la. Quando paramos de nos abandonar para manter uma rotina que esvazia.
Talvez a felicidade, nesse ponto da vida, não esteja em respostas prontas, mas em escolhas conscientes. Talvez não seja, de imediato, sobre decidir ficar ou ir, mas sobre voltar para si. Reconhecer o que dói, o que falta, o que ainda pulsa. Porque nenhuma relação deveria exigir que uma mulher silencie sua alma para funcionar. A felicidade, muitas vezes, começa quando temos coragem de nos escutar novamente — e de nos escolher, mesmo que isso assuste.